Hoje eu corri.
Corri como há anos não corria e me senti também como há anos não sentia.
Voltar pra musculação tem me feito sentir forte em tantos aspectos que mal consigo explicar e hoje a corrida me fez sentir ainda mais forte, mais eu, um eu quase infinito.
Essa jornada tem sido difícil, os resultados tem demorado mais a chegar e pra mim, sinceramente, tem sido difícil alinhar 100% a alimentação, as escapadelas apesar de minimas ainda acontecem e tem refletido nos resultados.
Também existe o fator do ganho de massa magra, assim a equação de perda de peso já não é algo tão simples como 2+2. Talvez seja um sinal de que pela primeira vez na vida eu devo levar mais em consideração as variáveis que propriamente o resultado... Talvez eu apenas tenha que olhar que o resultado na balança as vezes é bem menos relevante que tantos outros ganhos que tenho conquistado desde que voltei para a rotina de academia.
De qualquer forma a felicidade de me sentir eu outra vez tem sido inegável e creio que seja esse o maior e melhor resultado que eu posso atingir.


Paz é uma palavra curta que demoramos uma vida pra conquistar, simplesmente porque é dificílimo sempre optar por ela quando a outra opção é nos entregarmos a raiva e a dor. E a dor vem, vem das mais diversas formas agarrando, abraçando, sufocando...
Nos últimos dois dias foi dificil optar pela paz e hoje em específico foi quase impossível. Isso impactou na qualidade dos alimentos de hoje e quase me custou um dia de atividade física. Porém não me rendi as quantidades e não abandonei os exercícios.
As vezes as escolhas mais difíceis são as que devem ser feitas. Perdoar e prosseguir nem sempre é fácil mas a longo prazo é a melhor opção.
Eu prossegui.



O dia foi de resoluções e sei que essa noite ao me deitar terei um sono mais tranquilo.A vida real também tem suas belezas: hoje o problema que ontem me assombrava já foi quase 100% solucionado e só restam as outras coisas com as quais devo e vou me preocupar.

Nesse terceiro dia a vontade de comer o que não devo deu ainda mais espaço a mim. É curioso como a vontade de ciscar fora do meu terreiro some toda vez em que mergulho de cabeça na musculação. Entre dores nos biceps, coxas e panturrilhas o mundo todo desaparece enquanto eu surjo forte, mesmo que só durante aqueles minutos; Ali sou eu, 100% humana e me esforçando para ultrapassar cada um dos meus limites. 

O prazer de repetir até a exaustão está aos poucos ressurgindo, mesmo que no fim da noite eu mal consiga andar e o fato de saber que amanhã vou lá pra dar mais de mim, só me faz mais e mais feliz.

Aliás, repetir é o que eu quero. Repetir sempre que puder o dia de hoje.







Hoje acordei mais otimista e continuei engatinhando em direção a luz. A diferença é que dessa vez já não acho que a luz seja outra pessoa ou um acontecimento milagroso, a luz que eu vejo, mesmo que ainda fraca, é a minha própria que andava escondida embaixo de tantas camadas e duvidas.

Ontem diferente do que eu imaginava, as pendencias da vida adulta não me permitiram ir me matricular na minha nova academia e a realidade é que por pouco hoje não deixei a vida e os problemas me arrastarem outra vez.


O prazer de ficar mais velha está exatamente em conseguir quebrar com os mesmos padrões de anos e anos incorrendo no mesmo erro: rolar escada abaixo toda vez que tomava um susto ou tropeçava.

Ao invés de rolar continuei. Lavei o rosto, passei o bendito filtro solar, dei uma geral na casa, resolvi as pendencias do pintor da casa antiga que devolvo a chave nessa sexta, descobri algo que foi quase um tiro no figado entre as minhas correspondências da casa antiga e mais uma vez senti vontade de rolar a tal escada. MAS CONTINUEI.

Perdoei a mim pela milésima vez e como um ato de carinho, me levei a academia que fica a 3 quarteirões do apartamento novo( mesmo quando minha cabeça gritava querer se esconder embaixo de um cobertor e comer bolinho de chuva até o mundo explodir). Fui porque desistir de mim não é mais uma opção.

Lá de cara já fechei a matrícula mensal, entrei e treinei. Treinei como não treinava havia anos, como não treinava desde 2014 antes da minha cirurgia e antes de eu resolver rolar escadaria abaixo outra vez.

A cada série eu me olhava no espelho e mentalizava que tudo aquilo era carinho, era por mim e pra mim. E pela primeira vez em anos saí de um treino com o corpo todo dolorido, braços, pernas, coxas, panturrilha... Pela primeira vez em meses o Edson olhou pra mim toda destruida após o treino e disse "Nossa, você está feliz! Finalmente você está feliz!".

E eu estou mesmo.


Hoje pela milésima vez juntei cada pedaço espalhado e recomecei.

Alí em frente ao espelho tentei ver além dos Kg a mais, das olheiras, dos cabelos rebeldes e por um segundo consegui me ver alí, só um ser humano.
Foi quando mais uma vez cheguei a conclusão de que o que sempre me afasta de mim e do equilíbrio é o fato de eu nunca me aceitar como humana já que entre eu e eu existe esse espaço preenchido com perfeccionismo, intensidade e obsessão por controle.
Quando me dei conta de que cada uma dessas características anda de braços dados com a ansiedade e com a depressão que percebi o quão absente tenho sido em relação a mim. E quão mais perfeita eu busco ser pra todos os que eu amo, mais eu me aperto no centro dessa ciranda maligna que me sufoca e ancora.
Sentir é difícil mas não precisa ser e hoje, vendo aqueles olhos no espelho fui capaz de sentir isso mesmo que por um segundo.
Eu só preciso de mais segundos.


PS: Hoje volto para a musculação, algo que me faz bem precisei parar em 2014 e que realmente faz parte de mim.